
Eu fico aqui pensando:
Se a pedofilia assim tão nojenta sempre existiu
ou agora com a internet ficou mais visível...
Ou ainda, se por as mulheres terem encontrado
de alguma forma, alguma defesa e direitos,
os homens mais "doentes" teriam se voltado
para o ataque a crianças, uma vez que estas ainda
se encontram numa situação frágil e desprovida
de proteção eficaz ou direitos de fato...
A impunidade existe, e isso é óbvio, e claro,
que esse tbm é um fator importante...
E a "Casa Pia"? Até agora... nada...
Ninguém tem dúvidas de que essas coisas aconteciam,
mas o problema é que não eram pais ou padrastos drogados,
bêbados, mendigos, ou seja a escória que se joga numa cela
e que não faz diferença pra ninguém...
A preocupação dos advogados é limpar a imagem dos seus
clientes perante a sociedade, que em todo lado é
hipócrita q.b.
E as vidas dessas crianças, que cresceram marcadas,
feridas, essas infâncias perdidas, essas vidas manchadas
Quem é que as vai defender?

E ainda há aqui, uma coisa ainda pior
que é a conivência, ou a covardia, dos adultos,
que tomam conhecimento do caso, e nada fazem.
Eu conheço uma mãe, que teve uma filha violada,
por um vizinho, enquanto estava ausente, mas nunca
disse nada ao pai, para o poupar da dor, e assim
o vizinho nunca foi punido, mas a filha de 4 anos, ficou marcada
pra sempre, inclusive com uma cicatriz na face.
Em outro caso, o padrasto obrigava a enteada
a fazer sexo oral, esta ainda adolescente, 11, 12 anos.
Mesmo hj em dia, depois de alguma análise ainda
tem a vida sentimental e sexual nublada,
mas a mãe continua casada com o tal padrasto,
mesmo sabendo que ele é um traste...
Como professora nas periferias de BH
vivi muitas vezes essa experiência com alunas
vítimas de abusos e violências...
até abrir mão de um cargo efetivo, pelas minhas angústias
em não poder ajudar, totalmente impotente...
O último caso que me marcou foi o da Michele,
ela e a amiga estavam em casa da amiga estudando,
qdo chega o pai bêbado e obriga as duas
a manterem relação com ele... As duas eram minhas alunas,
e enquanto Michele se sentia terrivelmente envergonhada,
a filha do agressor dizia a toda gente o que havia se passado,
nada foi feito no sentido de punir o pedófilo,
a mãe da Michele, divorciada do pai, não achou
que valia a pena fazer nada, sozinha e pobre, ela
pensava que poderia ser perigoso pra elas denunciá-lo.
E é ainda pior qdo é o próprio pai da criança,
o autor do crime... a minha vizinha tinha uma sobrinha,
que um dia no meio de uma reunião familiar acusou o
pai, um alcoolatra sem tratamento, de ter abusado dela
várias vezes durante a sua adolescência, e ela
só agora, já casada e mãe de duas crianças teve
coragem suficiente de dizer isso perante toda a família.
Tbm nesse caso, nada foi feito, as pessoas
"abafaram o caso", e duvidaram da veracidade dos fatos.
Será por já não poder atacar as vovozinhas
tão à vontade, que os monstros homem
se voltaram para a pedofilia? ou será que como
toda a podridão do patriarcado está vindo à tona
como nunca antes, tbm essa atrocidade sempre existiu,
encoberta pelas mulheres e pela lealdade masculina?
não é só a falta de noção, Marian...
é algo que eu não sei nominar...
Quando eu falei com meu tio que estava fazendo
um blog com uma temática feminista, ele me disse:
isso é frescura não é não?
E eu tentei emendar: é ecofeminismo, uma visão
do feminismo aliado às questões ecológicas...
e ele: Ah, mais frescura ainda...
Mas qdo eu disse a estatística sobre a criminalidade
feminina, à volta dos 3,7%
ele ficou calado... pois tendo ele cargo de alta patente
dentro da Polícia Militar de Minas Gerais,
sabe bem que há uma diferença gigantesca...
mesmo assim ele disse: Mas hj em dia as mulheres
tbm estão muito envolvidas em assaltos, tráfico, etc...
E eu disse: mas vc sabe que na maioria dos casos, elas
o fazem coagidas pelos namorados, maridos e parentes.
e encerramos a conversa...

A verdade é que o sistema patriarcal é baseado
num submundo de violências, atrocidades, torturas
e que a defesa dos direitos humanos é relativamente
recente... Por isso qdo falo das sociedades matrilineares
como uma alternativa, não falo pq sou mãe...
falo pq sou humana, ainda...
Embora eu pense que não mereçamos uma chance
temo-la, e devíamos aproveitar...
Antes que a capa da revista aí encima
deixe de ser apenas uma campanha anti-pedofilia
e passe a ser uma realidade surda, muda e cega.